Atlas avançou primeiro.
Impulsionado pelo voo, desapareceu em um borrão branco e vermelho que atravessou a sala de treinamento em direção ao adversário. O primeiro soco encontrou apenas o vazio. O segundo passou a centímetros do rosto de Heian. O terceiro atingiu o piso reforçado, fazendo o concreto modular estremecer sob o impacto.
Heian não respondia com força. Respondia com precisão.
Cada esquiva exigia apenas alguns centímetros de deslocamento. Um giro discreto do quadril fazia um cruzado passar ao seu lado. Um pequeno recuo retirava seu corpo da trajetória de um chute. Quando Atlas exagerava no impulso, Heian conduzia sua força para outra direção utilizando alavancas, mudanças de direção e princípios das artes marciais que aprendera durante doze anos ao lado de Magister.
Era como assistir alguém lutar contra o próprio reflexo. Quanto mais Atlas aumentava a velocidade, mais parecia atacar um lugar onde Heian já não estava.
Então Heian percebeu algo.
Sua percepção antecipada mostrava dezenas de possibilidades se formando diante dele. Em praticamente todas elas, Atlas interrompia a força do golpe no último instante. O jovem ainda carregava o receio de machucar alguém que, apesar de toda a habilidade, continuava sendo apenas um ser humano.
Heian compreendeu imediatamente. Atlas não estava lutando para vencer. Estava lutando para não ferir. Pela primeira vez desde o início do combate, tomou uma decisão diferente. Permaneceu parado.
O punho de Atlas atingiu seu abdômen com violência suficiente para erguer seus pés do chão. O impacto ecoou por toda a sala de treinamento. Heian foi lançado vários metros para trás, deslizando sobre o piso até cair de joelhos. Um gosto metálico invadiu sua boca. Ele cuspiu sangue sobre o chão.
Atlas congelou.
Antes que pudesse pedir desculpas, encontrou o olhar de Heian. Já não havia serenidade. O herói limpou o sangue do canto da boca e o encarou com uma intensidade que Atlas jamais havia visto.
— Pare de se segurar.
O silêncio durou apenas um instante. Na investida seguinte, Atlas não conteve mais nada.
O treinamento transformou-se em um verdadeiro combate.
Cada soco produzia ondas de choque que reverberavam pela sala. O piso reforçado rachava sob seus pés. Equipamentos eram destruídos apenas pelo deslocamento do ar. Marcas profundas surgiam nas paredes metálicas sempre que um golpe errava o alvo por centímetros. Mesmo assim nenhum deles acertava Heian.
Conforme a intensidade da luta aumentava, também mudava a forma como Heian se movia. Os pequenos ajustes que antes bastavam deram lugar a movimentos cada vez mais complexos. Saltos, giros, rolamentos e esquivas acrobáticas surgiam com uma fluidez impressionante, nunca como demonstração de habilidade, mas como a resposta exata que aquele instante exigia. Seu domínio do próprio corpo era tão refinado que parecia impossível distinguir onde terminava a técnica e começava a improvisação.
Seus próprios ataques também eram impressionantes. Socos atingiam pontos vulneráveis. Chutes interrompiam a postura de Atlas. Alavancas desviavam seu centro de gravidade. Em diversos momentos, utilizava o próprio impulso do adversário para desequilibrá-lo e alterar completamente sua trajetória.
Contra qualquer outro oponente, aquilo encerraria a luta.
Contra Atlas, não.
Sempre que perdia o equilíbrio, seu voo assumia naturalmente o controle. Antes mesmo de tocar o chão, estabilizava o corpo no ar, corrigia sua trajetória e voltava imediatamente à ofensiva. Sua invulnerabilidade tornava praticamente inútil qualquer tentativa de causar dano real. Os golpes de Heian apenas quebravam seu ritmo, consumiam sua energia e obrigavam-no a reconstruir seus ataques.
Pouco a pouco, ambos compreenderam a mesma verdade.
Atlas possuía força suficiente para destruir toda a sala de treinamento, mas não conseguia tocar Heian. Heian possuía habilidade suficiente para controlar completamente o ritmo do combate, mas não tinha força para derrotar Atlas.
A cada troca de golpes, Atlas aumentava um pouco mais a velocidade de seus avanços. Heian respondia elevando o nível de sua própria movimentação. Os impactos tornavam-se mais violentos, as esquivas mais improváveis e os intervalos entre um ataque e outro praticamente desapareceram. Já não havia espaço para hesitação. Os dois haviam se deixado envolver pelo combate, pressionando um ao outro a superar os próprios limites.
Os heróis, porém, não encontravam uma resolução. Ambos respiravam com mais intensidade; o desgaste de dezenas de ataques, esquivas e contra-golpes começava a pesar sobre seus corpos. Ainda assim, nenhum dos dois diminuía o ritmo. Cada troca parecia alimentar a seguinte, levando Atlas a atacar com ainda mais velocidade e obrigando Heian a revelar movimentos cada vez mais refinados para manter o controle da luta.
Foi então que Atlas finalmente enxergou uma oportunidade.
Ele lançou-se para a frente com toda a potência do voo, concentrando velocidade e força em um único soco.
Heian entrou na trajetória no último instante.
Em vez de recuar, avançou um passo curto, encaixando o corpo sob o braço do adversário. Seu quadril girou com precisão absoluta enquanto uma das mãos controlava o punho de Atlas e a outra guiava seu braço sobre o próprio ombro. Durante uma fração de segundo, os dois pareciam ocupar o mesmo espaço.
Então o equilíbrio de Atlas desapareceu.
O enorme impulso de Atlas deixou de empurrá-lo para a frente e passou a girar ao redor do próprio corpo. A força que deveria atingir Heian transformou-se na força que lançava Atlas por cima dele. O jovem foi arremessado em uma trajetória descendente, em direção ao piso da sala de treinamento.
Mas, mesmo enquanto atacava sem descanso, Atlas observara cada resposta do adversário durante o combate.
Heian jamais enfrentava força com força; transformava o impulso recebido em uma nova direção. Na fração de segundo que antecedeu o impacto, Atlas compreendeu aquele princípio e, em vez de lutar contra a queda, entregou-se completamente a ela. Suas duas mãos tocaram o chão por um único instante, não para amortecer o impacto, mas para utilizá-lo.
O voo respondeu imediatamente. Aproveitando o apoio das mãos e toda a velocidade acumulada, Atlas converteu a própria queda em uma arrancada explosiva, mudando de direção quase sem perder impulso e retornando contra Heian como um míssil disparado à queima-roupa.
Foi nesse instante que Heian viu o futuro.
Não um.
Todos.
Em cada possibilidade que surgia diante de seus olhos, Atlas cruzava a distância restante e atingia seu peito com os dois pés.
Não havia tempo para um passo. Não havia tempo para um giro. Não havia tempo para uma defesa.
Seu abdômen seria esmagado. Costelas e caixa torácica cederiam sob o impacto. A hemorragia interna começaria imediatamente. Seu corpo atravessaria a sala enquanto o sangue lhe encheria a boca antes mesmo de tocar o chão. Poucos segundos depois, perderia a consciência. Pela primeira vez desde o início do combate, sua técnica havia encontrado um limite.
Então Heian escolheu outra realidade.
Não houve explosão. Não houve clarão. Nenhum efeito grandioso. Durante um único instante, seus olhos tornaram-se completamente brancos. Seus cabelos e a faixa presa à cintura moveram-se como se uma rajada invisível tivesse atravessado a sala e, no momento seguinte, Heian simplesmente não estava mais onde deveria. Ou, ao menos, era isso que todos viram. Na realidade que escolhera, ele jamais estivera naquele ponto, mas cerca de um metro ao lado.
Atlas atravessou o espaço vazio em velocidade absurda e atingiu a parede do fundo da sala com um estrondo capaz de fazer toda a estrutura tremer. O concreto reforçado cedeu sob o impacto, abrindo um enorme buraco cercado por rachaduras. O silêncio que se seguiu foi absoluto.
Heian respirava com dificuldade. Seu peito subia e descia rapidamente, consequência de um combate que já exigira do corpo muito mais do que qualquer treinamento comum. Durante vários minutos, sustentara um ritmo absurdo, elevando gradualmente a intensidade ao lado de Atlas sem jamais permitir que sua técnica se deteriorasse. Mas aquele último uso de seu poder fora diferente. Alterar a realidade naquele nível consumira muito mais do que todas as pequenas intervenções quase imperceptíveis que fizera ao longo da luta. O desgaste físico acumulado encontrava, enfim, o preço de manipular o próprio mundo.
Atlas começava a se erguer entre os escombros da parede destruída quando Heian ergueu uma das mãos em sua direção.
— Pare!
A voz ecoou pela sala com uma firmeza que interrompeu qualquer reação. Atlas congelou antes mesmo de compreender o motivo.
Heian ainda respirava com dificuldade.
— Está bom… já terminamos.
Por alguns segundos, ninguém conseguiu dizer uma palavra. Atlas permaneceu olhando para o espaço onde tinha absoluta certeza de que Heian estivera um instante antes. Não havia fumaça. Não havia explosão. Não havia qualquer efeito visual capaz de explicar o que seus próprios olhos haviam testemunhado. Heian simplesmente deixara de ocupar um lugar e passara a existir em outro.
Heian compreendeu que o combate havia alcançado o limite do que seu corpo, sua técnica e sua experiência eram capazes de suportar. Se continuasse lutando, não restaria alternativa além de recorrer plenamente ao poder que passara a vida inteira aprendendo a evitar.
KKK QUASE MORRO
Heian é o encontro de coragem, arte marcial e controle no uso de superpoderes. Ele dá a impressão de super-velocidade. Márcio ficou super impressionado com a demonstração de ambos. Mas o ginásio vai ter que passar por umas reformas e talvez troca de materiais.
Magister vai ter que pagar uma parede nova pra base!!