Márcio soube que aquela missão havia mudado no instante em que viu as cápsulas. Até então, tudo tinha sido cálculo: infiltrar, encontrar o laboratório, descobrir onde produziam a Roxinha, localizar Laos e sair dali. Havia rotas, probabilidades, posições dos inimigos e alternativas para cada imprevisto. Era assim que ele sempre funcionara. Beto lhe ensinara que uma missão não era vencida pela força, mas pela capacidade de antecipar o próximo movimento. Aos treze anos, Márcio já passava horas aprendendo a observar antes de agir; depois vieram as artes marciais, a investigação, a engenharia, a resistência física, os exercícios até a exaustão. Vieram também as substâncias. Pequenas doses, cuidadosamente calculadas, destinadas a tornar sua mente mais rápida, seu corpo mais forte, seus reflexos mais precisos. Tudo tinha uma finalidade. Tudo fazia parte da construção de Flecha Prateada.
Mas ali, diante daquelas cápsulas, aquela lógica simplesmente não servia.
Havia pessoas dentro delas.
Márcio caminhou entre os tanques transparentes e sentiu o estômago se contrair. Alguns corpos pareciam humanos apenas de longe. Havia braços deformados, asas que jamais poderiam sustentar um corpo, mandíbulas alteradas, membros que pertenciam a alguma coisa que ninguém deveria ter sido obrigado a se tornar. Eram os fracassos de LUMI3. Pessoas que alguém colocou sobre uma mesa, conectou a tubos e observou enquanto seus corpos mudavam. Márcio conhecia aquela imagem. Não aquela sala, não aquelas máquinas, mas a sensação. A luz branca sobre o rosto. O frio da superfície metálica sob as costas. O cheiro de laboratório. A agulha entrando na pele. A voz de Beto perguntando como ele estava se sentindo enquanto esperava que alguma nova capacidade aparecesse.
Márcio fechou os olhos por um segundo.
Tinha treze anos outra vez.
Não era uma lembrança completa. Nunca era. Eram fragmentos: o teto branco, os dedos cerrados contra a maca, a ordem para não se mexer, a expectativa silenciosa de quem observava. Depois vinha a o ardor da substância percorrendo as veias e, mais tarde, os testes. Correr. Reagir. Pensar. Lutar. Resolver. Repetir. Se o resultado melhorasse, avançava-se para o próximo estágio. Se doesse, suportava-se. Dor era apenas informação. Fraqueza era um problema a ser corrigido.
Naquela época, Márcio acreditava que aquilo era amor. Talvez porque Beto estivesse sempre ali.
Quando abriu os olhos, Psique estava diante dele, preso em uma das cápsulas.
Márcio não pensou em Laos. Não pensou na Roxinha. Não pensou no que aquela descoberta significaria para a investigação. Também não pensou em qual seria a maneira mais eficiente de terminar aquela luta. Pensou apenas em abrir aquela cápsula.
Depois outra. E outra.
Seu treinamento dizia para avaliar riscos, preservar recursos, priorizar o objetivo. Mas havia uma regra mais antiga, uma que ninguém precisara ensinar: ninguém deveria permanecer naquela mesa.
Enquanto trabalhava para libertar Psique, Márcio percebeu que estava tremendo. Não era medo. Era raiva. Uma raiva silenciosa, diferente daquela que tantas vezes o fizera avançar contra um inimigo antes de pensar. Aquilo não era impulso. Era reconhecimento.
Ele conhecia aquelas pessoas. Não seus nomes. Não suas histórias. Mas conhecia o olhar de quem acordava sem saber exatamente o que tinham feito com seu próprio corpo. Conhecia a sensação de esperar que alguém decidisse se você era um sucesso ou uma falha. Conhecia o que significava ser observado como uma coisa que precisava apresentar resultados. Por isso não conseguia simplesmente deixá-los ali.
Os outros poderiam lutar contra os homens que fizeram aquilo. Poderiam perseguir Laos, destruir o laboratório, acabar com a produção da LUMI3. Márcio também queria tudo isso. Mas naquele momento havia algo mais urgente.
Tirá-los dali. Salvar aquelas pessoas era, de alguma forma, salvar aquele garoto.
O garoto de treze anos que ainda existia em algum lugar dentro da armadura prateada. O garoto que aprendeu a não reclamar da dor porque havia um próximo teste. O garoto que aprendeu a transformar medo em concentração, sofrimento em disciplina e obediência em excelência. O garoto que nunca perguntou se alguém o via como pessoa.
Márcio abriu mais uma cápsula.
— Eu vou tirar vocês daqui.
Não sabia se alguém conseguia ouvi-lo. Talvez ninguém estivesse consciente. Talvez aquelas palavras não significassem nada para eles. Mas significavam para ele. Porque, pela primeira vez, Márcio compreendeu que aquela missão não era apenas sobre impedir que outras pessoas fossem transformadas em armas.
Era sobre impedir que aquilo continuasse acontecendo dentro dele.
Enquanto libertava os sobreviventes, ouviu os sons da batalha acontecendo atrás de si. Explosões. Gritos. Metal se partindo. Os outros avançavam contra os responsáveis por tudo aquilo. Márcio permaneceu entre as cápsulas.
Flecha Prateada sabia lutar. Sabia calcular. Sabia vencer.
Mas, naquele momento, Márcio Mendes precisava aprender outra coisa. Precisava aprender a salvar. E talvez, ao salvar aquelas pessoas, estivesse finalmente começando a salvar a si mesmo.
Talvez eu devesse tentar ser mais como Márcio, mas parece que quanto mais me preocupo com as pessoas mais às machuco.