Depois de enfrentar os vilões vestidos de peças de xadrez — sim, por mais ridículo que pareça, eles estavam destruindo o centro da cidade —, a Alma, o Azureum e eu nos separamos para tentar ser úteis em outras frentes. Mantivemos contato via comunicadores, mas eu decidi aproveitar o momento para patrulhar e ajudar sem a máscara.
Havia uma liberdade indescritível em poder olhar as pessoas nos olhos, sabendo que elas não se assustavam mais ao ver o meu rosto em vez do metal frio do Flecha Prateada. Só então eu entendi por que meu pai adotivo, o Silver-Hunter, fazia questão da máscara o tempo todo. Ela nunca serviu apenas para proteger nossa identidade; servia para instigar o medo, para afastar os maus. Mas agora eu precisava de outro efeito. Preciso que as pessoas confiem em mim. Como um bombeiro ou um paramédico, preciso inspirar confiança e tranquilidade para aqueles que ajudo. Os malfeitores continuarão encontrando os meus punhos e a justiça, mas eles não são mais o meu principal objetivo. Eu sou um guardião de Central City. E é assim que vou me revelar e apresentar de agora em diante.
Voltei para a van, estacionada a poucas quadras dali. Recarreguei a armadura e verifiquei se havia alguma mensagem do Comissário. Não demorou muito para os sensores captarem sons de socorro. Alguma emergência! Liguei o motor e fui atrás.
Ao chegar ao local, encontrei hidrantes arrebentados e crianças gritando, mas nada que a Defesa Civil não pudesse resolver. Mesmo assim, estacionei e tentei ajudar. Uma senhora estava passando mal. Arranjamos uma cadeira, estabilizamos a situação e liguei para o SAMU. As pessoas estavam assustadas, então tentei passar segurança: impostava a voz, falava olhando nos olhos de cada cidadão.
Retornei à van. A cidade é enorme. Chequei o canal da DPCC no comunicador; o movimento ainda estava longe do normal, mas nada fora de controle. Parecia que o pior realmente havia passado. No entanto, após rodar alguns quilômetros em direção ao centro, rumo ao hospital, deparei-me com um grupo de baderneiros fazendo vandalismo. Estacionei atrás de um prédio e dei a volta para surpreendê-los.
Dei alguns disparos de advertência para chamar a atenção. A maior parte caiu em si e saiu correndo, mas os meus favoritos resolveram dobrar a aposta e me enfrentar. A adrenalina bateu forte. O treinamento não letal de Aikido e Jiu-Jitsu ajuda muito nessas horas: quebra-se o braço de um, desloca-se o ombro de outro, salto por cima de um grupo e aplico um mata-leão no aparente líder. Os outros fogem. Tudo dentro da rotina. Foi ótimo ter trazido os enforca-gatopara imobilizar os baderneiros e deixar uns presentinhos amarrados para a DPCC, hehehe.
Foi quando algo realmente chamou minha atenção. No fim da rua, uma senhora gritava por socorro — tinham levado a sua bolsa. Eu consigo manter uma média de 30 km/h correndo, mas em sprints curtos chego perto de 80 km/h. Alcancei o fim da rua em segundos. O malfeitor já havia entrado em um beco. Pedi calma à senhorinha e entrei na escuridão atrás dele.
Opa! Pode ser uma armadilha.
Meus instintos gritaram. Reduzi o ritmo e deixei os sensores da armadura fazerem uma varredura completa enquanto avançava. De repente, do fundo escuro do beco, surge uma penumbra. Alguém parado, me encarando. O brilho de dois olhos vermelhos em LED fixos diretamente em mim.
Disparei uma flecha iluminadora para o alto. Conforme ela descia, enchendo o beco de luz, eu o vi: o Red-Hunter, o alter ego sombrio do meu pai adotivo.
Enquanto a luz incandescente estalava e iluminava o cimento sujo daquele beco, minha mente começou a girar a mil por hora, conectando os pontos com uma irritação crescente. Por que ele me evitou durante dias, recusando qualquer contato, só para reaparecer justamente agora, transformado nessa versão dramática e teatral de Red-Hunter? Por que encenar todo esse teatro barato no meio da noite? Se ele queria tanto uma conversa séria, por que não marcamos isso no escritório de advocacia dele, com ar-condicionado, café e papéis na mesa, em vez de armar uma entrada triunfal digna de filme B?
E, sinceramente… será que ele realmente achava que ia me intimidar com todo esse figurino de LED vermelho e pose de mentor inflexível? Eu acabo de descer a lenha em capangas e encarar o caos nas ruas de cara limpa. Não sou mais o garoto que precisa abaixar a cabeça só porque ele vestiu a armadura vermelha e preta.
Ele cruzou os braços na penumbra, fitando meu rosto descoberto, e disse: — Precisamos conversar.