O restaurante ficava em uma esquina movimentada, bem ao lado do prédio imponente da Defensoria Pública. Márcio chegou primeiro, como sempre. Cinco minutos adiantado. Pontualidade era disciplina, e disciplina era sobrevivência — Beto lhe ensinou isso há anos.
— Você parece um turista perdido.
Elenora Sterling parou na entrada, uma pasta debaixo do braço e um sorriso cansado no rosto. Os cabelos escuros caíam sobre os ombros, e seus olhos carregavam a mesma mistura de afeto e preocupação que Márcio aprendera a reconhecer ao longo de seis anos.
— Estava observando os detalhes — respondeu, levantando-se. — É um hábito.
— Eu sei. — Ela sentou-se à sua frente, depositando a pasta sobre a mesa. — Você sempre foi assim. Mesmo quando era só um garoto magricela que mal alcançava o balcão do escritório.
Elenora estava lá desde o começo. Desde que Beto o trouxera para a mansão, um órfão das ruas com olhos desconfiados e um silêncio que escondia mais do que qualquer um podia imaginar. Ela viu suas transformações — o corpo ficando mais forte, os movimentos mais precisos, o olhar mais calculista. Mas também viu o que Beto ignorava: o isolamento crescente, a espontaneidade morrendo, as perguntas que ele parou de fazer.
O garçom chegou. Elenora pediu sem olhar o cardápio, e Márcio pediu o mesmo.
— Você nunca foi de escolher, não é? — Ela inclinou a cabeça. — Sempre segue o fluxo. O que os outros querem. O que Beto quer.
— Não é seguir o fluxo. É estar preparado.
— É o que você diz para si mesmo.
O silêncio teve peso. Elenora sempre foi a única que via através da armadura. A única que perguntava o que ele queria.
— Como estão seus novos amigos? — perguntou ela, mudando de assunto com uma sutileza que Márcio conhecia bem. — Os da faculdade?
Márcio hesitou. Ela não estava perguntando sobre colegas de classe. Ele sabia disso.
— São… interessantes.
— Interessantes como?
— Diferentes. — Ele tomou um gole de água, escolhendo as palavras com cuidado. — Um é muito direto, quase agressivo. Outro é mais quieto, observador. Tem um que parece viver em um mundo próprio. E outro que… — Ele parou. — Outro que parece carregar um peso que não deveria ser só dele.
Elenora sorriu, e havia algo naquele sorriso que Márcio não conseguia decifrar.
— Parece que você está gostando deles.
— Não é sobre gostar. É sobre… — Ele hesitou novamente. — É sobre perceber que talvez existam outras formas de fazer as coisas.
— Outras formas além do que Beto te ensinou?
A pergunta foi um dardo. Márcio sentiu o desconforto subir pela nuca.
— Beto me ensinou a sobreviver.
— Ele te ensinou a ser uma arma. — A voz de Elenora era suave, mas firme. — Há uma diferença, Márcio. Uma arma não escolhe seus alvos. Não escolhe se quer ou não atirar. Ela só segue ordens.
— Eu escolho. — A resposta veio mais rápida do que ele esperava. — Eu escolho todos os dias.
— Você escolhe o que Beto quer que você escolha.
O silêncio que se seguiu foi desconfortável. Elenora deslizou a pasta sobre a mesa.
— O que é isso?
— Documentos. Coisas que meu pai guardou antes de morrer. — Ela baixou a voz. — Investigações antigas. Evidências contra Enzo Costalarga que nunca foram apresentadas ao tribunal. Meu pai confiava em Beto, mas não o suficiente para deixar tudo nas mãos dele.
Márcio segurou a pasta, sentindo o peso.
— Beto pediu que você entregasse isso a mim?
— Não. — A resposta foi firme. — Ele não sabe que estou fazendo isso. E francamente, não confio que ele fosse te entregar.
— Por quê?
— Porque essas evidências não são só sobre a Costech. — Ela sustentou seu olhar. — São sobre o que Beto fez depois que Costalarga escapou. Sobre o que ele escondeu. Meu pai descobriu coisas que Beto nunca quis que ninguém soubesse.
— Que tipo de coisas?
— Coisas que você precisa ver por si mesmo. — Ela inclinou a cabeça. — Eu te conheço desde os treze anos, Márcio. Vi você se tornar mais forte, mais rápido, mais preciso. Mas também vi você parar de fazer perguntas. Você nunca perguntou por que Beto te escolheu. Nunca perguntou o que aconteceu com seus pais.
O ar pareceu sair do peito de Márcio.
— Por que está fazendo isso? — perguntou, a voz rouca. — Se Beto descobrir…
— Ele vai descobrir. — Ela deu de ombros. — E quando descobrir, vou lidar com isso. Mas você precisa saber a verdade, Márcio. Não porque Beto é mau. Porque você merece escolher. Merece saber quem você é antes de decidir no que quer se tornar.
Márcio olhou para a pasta. Para o nome escrito à mão. Para a promessa de respostas que ele nunca tivera coragem de buscar.
— O que você sabe sobre meus pais?
— Nada. — Ela tocou sua mão. — E é exatamente por isso que estou te dando isso. Talvez as respostas estejam aí. Talvez não. Mas você nunca vai descobrir se continuar seguindo ordens sem questionar.
O almoço terminou com Elenora pagando a conta antes que ele pudesse protestar.
— Você pode me pagar outro dia — disse ela, com um sorriso que trazia de volta a garota que ele conhecera aos treze anos. — Quando você descobrir o que quer, me convida de novo.
Márcio saiu do restaurante com a pasta debaixo do braço. O sol da tarde batia em seu rosto, e pela primeira vez em muito tempo, ele não sabia para onde ir.
A base? O treino? O relatório para Beto?
Nenhuma dessas opções parecia certa.
Ele parou em uma esquina e abriu a pasta. Relatórios amarelados. Transações financeiras. Nomes que reconhecia dos arquivos de Beto. Guardou-a na mochila. Não leu ali. Não estava pronto.
Mas algo havia mudado. A confiança cega em Beto — aquela certeza inabalável de que o mentor sempre sabia o que era melhor — começara a rachar. Não por causa dos documentos. Não por causa das revelações. Mas por causa de Elenora.
Ela não lhe dera apenas provas. Ela lhe dera a pergunta que ele havia enterrado há anos: “O que você quer, Márcio?”
Ele pensou nos novos amigos. Nos rostos que começavam a se tornar mais do que aliados. Nas vozes que ele aprendia a reconhecer mesmo sem ver. O que ele queria?
— Não sei — murmurou para si mesmo, apertando a pasta contra o peito. — Mas talvez seja hora de descobrir.